sábado, 21 de julho de 2007

Re- escrevendo-me (3)

14-06-2004

Sentado na esplanada. Luz de lua cheia me vai iluminando enquanto algumas poucas estrelas vão enfeitando o céu num cintilar ténue.
Eu sinto-me monumentalmente grande.
Bebo um café com delicadeza. Sabe-me bem, pouco me importa a marca. Á minha frente senta-se alguém que coincidentemente é belo. Os olhos são lindos. O traço da boca é o que se pode dizer perfeito. Na pirâmide nasal não há sinal que destoe. E coincidentemente o conjunto é belo. Sim porque há quem tenha estes atributos todos e depois o conjunto é tipo 'ora bolas'.
A temperatura aqueceu mais um pouco.
Deve ser da companhia, só pode.
Os silêncios entrecruzam-se. Os olhares simulam afectos, toques que não se tocam. Cumplicidades nos gestos. De repente um estrondo. Assustado levanto-me. Procuro vagamente a origem. Descubro que tinha adormecido sentado na esplanada e o que me rodeava mais não era que um sonho. Olho para os lados todos a ver qual a figura que eu tinha feito. Tudo está como estava antes, ninguém notou que eu tinha estado ausente, ou então disfarçaram bem.
Uma pequena coisa mudou: o café arrefeceu!

terça-feira, 17 de julho de 2007

Re- escrevendo-me (2)

17-01-2004


Fico sentado debaixo do Imbondeiro à espera, ele não me faz sombra porque se esqueceu de ter folhas e eu tenho tempo. As águas vão amornar e as ideias vão clarear num ter tempo para ver o capim crescer e as flores florirem. Se calhar é sonho e não utopia.

Cresci numa terra civilizada em que só chovia três dias por ano e sempre à noite para não atrapalhar a vida de ninguém.

Eu tenho tempo para ler, ver que os anos passam, que as realidades de hoje são a miséria da História de amanhã, que as verdades de hoje se calhar não são verdades e por aí fora num rolo interminavel de papel.

Eu tenho tempo. Eu não vivo na urgência da vida.

Hoje um degrau, que pode ser partido, destruído, que eu tenho tempo para o reconstruir. Amanhã outro e se não for amanhã será noutro dia, porque eu tenho tempo.

sábado, 14 de julho de 2007

Re-escrevendo-me (1)

Calema 12-01-2004

Que hoje estou mesmo feito que nem coração vai deixar de bater. Vim mesmo cedo na praia, para ficar com o meu lugar de sempre e estender a minha toalha no lugar estratégico e num posso passar das arcadas.
Por Neptuno que fizeste calema esta noite, encheste a praia de caniços que o Bero trouxe lá da serra, que até chega no asfalto. Tu que dizes que és deus fazes essa coisa a mim e a tantos mapundeiros que tão aqui para saborear as tuas águas salgadas?
Num há direito.
Citroen assim num vai vir, e se o dourado num vem eu fico que nem cego por que não lhe vou conseguir de ver e se não lhe vir é meio caminho para acelerar o coração que até pode parar de cansaço.
Vou embora, vou ver se está alguém na Oásis, beber um carioca de limão, ver se alguma mapundeira passa por ali para alegrar a minina dos olhos e me afastar da tristeza de lhe ser cego hoje.
Vou mesmo ver se o César me empresta a mini Honda dele para esquecer a Suzuky do Tobé. O Figueira da farmácia não empresta a Honda 350 dele, senão ia puxar estilo lá no bairro do Citroen, mesmo que o corpo estivesse tremendo de medo de tanta força em duas rodas.
Me fico na conversa com o Bacharel e o Lopo. Esses candengues mesmo que são doidos. Tiveram acidente de carro - Seat 850 sport, que andava para caramba porque tinha a tampa do motor semi-levantada para num aquecer muito e porque dá pica faz parecer foi modificado, quando iam ver as 6 horas do Huambo. O carro lhes ficou com rodas para o ar, assim mesmo quando cágado fica ao contrário, não serve para andar. Eles sairam pelas janelas e assim vindo dum nada lhes apareceram perto do carro dois mumuilas que quando os viram só disseram 'coitado do carro'. E, que eles ficaram muito zangados porque ninguém lhes perguntou se estavam magoados. Iam estar magoados mesmo como se sairam do carro e podiam andar e só o carro estava ali a apanhar banhos de sol na barriga. Eles me estão a contar esta história e eu a rir a bandeiras despregadas, faz conta bandeira tem pregos. Mas lá os quatro conseguiram endireitar o carro e em vez de continuar viagem voltaram para trás. Como o carro ficou mais baixo, eles vieram com a cabeça de fora. Quase me mijei de tanto rir.
E não é que ficaram zangados comigo porque eu não lhes estava solidário e coisas e tal? Vais ver eles queriam ainda eu chorasse.
E eu que apenas queria ir mesmo só ate à praia e ver o menina do biquini azul.
Assim num brinco.

Não é Março, não está a chover mas faz calema